"O som não permanece neste mundo; ele desaparece no silêncio."
Daniel Barenboim
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terça-feira, 6 de julho de 2010

PAPINHA PARA QUEM PRECISA

Tenho ouvido e lido comentários de alguns colegas do meio lírico que dizem que esse nosso país não respeita os bons artistas. Fato. Imagino que em todas as áreas da arte haja intolerância para com aqueles que fazem diferença/diferente. Gosto de citar o meu espanto ao assistir um vídeo dos bastidores de gravação de um cd com cantores populares bem famosos. Estavam todos ali, sentados, acomodados como se estivessem em suas casas (estivessem no banheiro seria igual), aprendendo a música de última hora, resolvendo quem faria o quê. Tive a curiosidade de ver o tal vídeo, pois sua música principal fez um sucesso estrondoso e instantâneo. Digo que, aos meus ouvidos, a música era (e é) uma merda. A melodia poderia ser feita por um imbecíl; a letra, de um "romantismo" infantil; os intérpretes... bem, esses pareciam estar em alfa, com voz nenhuma, sussurrando aquele absurdo. Na minha opinião, nosso país - falo do Brasil, mas esse é um fenômeno mundial - desaprendeu a pensar, a receber algo consistente e mastigar, mastigar; estamos no tempo da papinha. Quanto mais fácil for, melhor. O resultado é que para fazer músicas para pessoas medíocres precisa-se, apenas, de um compositor medíocre, de intérpretes medíocres. Letra... pra quê? É só colocar algo sobre o amor, mesmo que esse "amor" seja apenas uma bela palavra pra "sexo", e pronto: "Ah, a música é linda, a mais linda que já foi feita!!!" Até vir outra pior, claro. Por essa e outras razões os artistas não têm vez. Artista demora pra ser feito. Artista, quanto mais velho, melhor. A matéria prima do artista é a sua vida. A arte fala da vida a partir da vivência pessoal do artista. Esse tipo de gente, o artista, incomoda. E, no Brasil, incomodar é proibido. Quem incomoda é posto de lado. Me lembro de ter lido que o tenor Beniamino Gigli, no auge de sua carreira, foi questionado por uma criança sobre quanto tempo um cantor deveria estudar para cantar como ele. Gigli disse: "Eu acabei de estudar faz cinco minutos." É isso.

sábado, 29 de maio de 2010

"A MORTE DA VOZ HUMANA"

Este é o título do artigo publicado no Estadão de hoje, 29 de maio, no Caderno C2+música, por João Marcelo Bôscoli, aqui. Ele fala de softwares como o auto-tune. Esses programas, criados nos anos 1990, garantem ao suposto cantor e suposto artista, a afinação adequada das músicas interpretadas. Assim como o photoshop, corrigem as imperfeições das vozes dos ditos cantores. João Marcelo fala do uso desenfreado desse recurso como a "falência da meritocracia". Concordo com ele e vou um pouco mais além. O fim, não da voz humana, mas da capacidade de enfrentar as dificuldades, de vencer as barreiras técnicas impostas pela arte de cantar é visível desde muito. Não apenas no canto mas nas artes de um modo geral. Estamos no tempo da mastigação fácil. Não só a feitura da arte, ou melhor, da dita arte precisa ser imediata, como também, sua assimilação, instantânea. É comum receber alunos que "precisam aprender a cantar pra gravar um cd na próxima semana". Já ouvi de um maestro, que eu não precisaria me preocupar com as questões técnicas de determinado cantor pois "o microfone daria o jeito necessário". Onde é que estamos? Como resultado, temos inúmeros "artistas" que nascem e, graças a Deus, morrem assim como nasceram, instantaneamente. Outros, com o apoio da grande mescenas de nosso tempo, a mídia, sobrevivem e ajudam nosso povo a ser mais alienado. Salvo raros e honrados artistas, a maioria, quando em shows "ao vivo", aproveitam-se de outro recurso eletrônico chamado playback, que os dispensa de cantar. E assim vamos.

terça-feira, 25 de maio de 2010

LIVRO - A GRANDE FEIRA, de LUCIANO TRIGO

Tenho lido A Grande Feira com grande interesse. Luciano Trigo descreve com muita propriedade os porões do mercado da arte. Ele cita, por exemplo, o "artista" Damien Hirst que colocou num aquário um tubarão mergulhado em formol. Essa "obra de arte" foi vendida por milhões de dólares e, não muito tempo depois, o peixinho precisou ser substituído por estar se decompondo. Outra passagem bem curiosa de Hirst eu trancrevo: "Sobre as telas que assina, Hirst já declarou que são pintadas por assistentes: 'Não estou a fim de me preocupar com isso. A pessoa que melhor tem pintado pra mim é a Rachel. Ela é brilhante. O melhor quadro meu que você pode ter é um quadro pintado pela Rachel.'" (pág.89). Que vergonha! Talvez o fato mais curioso seja o de que um diálogo aberto sobre esse assunto não aconteça no Brasil. Parece um tabu. Não se fala. Cala-se a respeito. Me pergunto: e o artista de verdade? aquele cara que vaza pelo seu trabalho, que não consegue ser se não for pela pintura, pela música...? Onde é que estamos? "é arte aquilo que o artista diz que é... é artista aquele que o sistema aponta como artista." (pág.89).

domingo, 16 de maio de 2010

O REI E EU

Estivemos ontem no Teatro Alfa assistindo ao espetáculo musical O REI E EU. A história é muito conhecida, agradável e politicamente correta. A música é boa. A orquestra muito correta, apesar do achatamento causado pela amplificação. Os cantores... Foi exatamente isso que mais me encantou. Havia ali uma verdadeira "arca de Noé" em se tratando de técnicas diversas. Cantores sem qualquer impostação, cantores com formação lírica e, ainda, cantores Belting, que é a técnica utilizada em musicais. Ambas conviveram muitíssimo bem. Claro que se distinguia perfeitamente cada uma delas, fato que apenas somou. Dos protagonistas posso dizer que encantaram. Tuca Andrada, o Rei, Claudia Netto, Anna e Luciana Bueno, Lady Thiang, estiveram muito bem. Falo particularmente da minha querida amiga Luciana Bueno (fotos), uma das grandes cantoras líricas desse país. Luciana é uma artista generosa. Não se poupa em nada, nunca. Está ali inteira, corpo e alma. Voz linda, marcante, personagem consistente e carismática. Foi uma bela noite!

quarta-feira, 31 de março de 2010

O FIM DA MÚSICA

No jornal O Estado de São Paulo de 27 de fevereiro de 2009, Nelson Motta escreveu um belo artigo intitulado “O fim da música”. Em poucas linhas ele diz que a música, mesmo antes do advento da internet, se esgotou. Diz que no exato minuto em que escrevo, milhares de músicas estão sendo jogadas na internet, criadas por qualquer pessoa, músico ou não; diz também que apenas uma pequeníssima porcentagem pode ser chamada de música. Fala dos grandes momentos musicais, especificamente dos vocais, óperas, musicais, a boa mpb... Quanto ao funck, diz que nada pode ser inventado de menos musical, pois este já não tem mais melodia e nem harmonia. Difícil não concordar. Eu apenas chamaria a atenção para o momento particular em que vivemos, em que nossa cultura se vai como grãos de areia aparados por uma mão aberta. A música tornou-se, com o passar dos anos, produção. É preciso produzir música. É preciso produzir música que o povo goste. Falando especificamente do povo brasileiro, é preciso compor músicas que nosso povo ignorante goste; que faça com que nosso povo ignorante se divirta e se divirta sem pensar. A “música” tem que entrar e pronto. Pelo que entendo, arte e diversão não são sinônimos. Arte sempre foi o retrato da civilização, da cultura, do pensamento. Seria bobo pensar em Bach, Mozart, Beethoven? Creio que não. Como também não é bobo pensar em Jobim. Esses mestres pensaram a música como a construção de um universo em si; colocaram ali sua visão particular de mundo, do mundo que os cercava. Por que razão continuam atuais? Por que, apesar da distância que nos separa, a música dos grandes compositores do barroco, do classicismo, do romantismo e de tantos outros “ismos”, ainda nos toca? Tive a oportunidade de ver alguns estudos com pacientes de vários tipos e níveis de patologias, mostrando o quanto a boa música os auxilia nos tratamentos de suas doenças. Li que este tipo de música ajuda os pacientes a ordenarem melhor seus pensamentos, a construirem uma real possibilidade de cura. Obviamente não estou dizendo que música é capaz de curar, por exemplo, o Alzheimer, mas há melhora inquestionável em tais quadros. O excesso de “produtos”, os novos “artistas” fabricados instantaneamente pela mídia, e seu conteúdo pobre e podre deveria nos fazer pensar por que não existe mais, ou melhor, por que a escassa música de qualidade não chega até nós. Por que nos tornamos reféns de “tapinhas” de amor que não doem? Onde estão os Artistas? Se eles existem, por que não lhes é dado espaço? Por que artista hoje em dia tem que ter peitos, bunda, ser sarado, ter nome de frutas... ser BBB? Se estamos aprisionados por tudo isso, alguma coisa fizemos. Atrevo-me a dizer que paramos de pensar. Isso na música e, creio, em todas as artes. Poderíamos ser melhores, não!

quarta-feira, 17 de março de 2010

RESSONÂNCIA

Ressonância é uma palavra que tem feito parte dos meus dias. No canto lírico, espaço das metáforas e fantasias, é usada para designar o melhor lugar da voz, onde a voz é em sua plenitude. A voz, esse ser estranho que nos habita, se utiliza de todo o corpo para ressoar. É isso o que buscamos: nossas caixas de som, onde a voz é naturalmente amplificada. Tenho aprendido que as cores também têm ressonância; são como que acordes musicais que encontram seu espaço e podem conviver em plena harmonia e expansão. Ah, essa pintura é de Samson Flexor!

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

SAIA JUSTA

No último sábado cantei em um evento aqui em São Paulo. Eu deveria cantar um repertório de canções napolitanas. Chuva, falta de luz... Cantei a luz de velas e as pessoas curtiram muito. Antes disso, porém, me deparei com uma situação até bastante comum: aguardávamos a vinda das pessoas de um outro salão e um encarregado que ali estava, pediu que fossemos fazendo um "sonzinho" pra chamar o público. O que, para uns, seria uma coisa absolutamente normal, para nós, músicos eruditos, não é. Em primeiro lugar, não improvisamos. Segundo, estudamos muito para que as pessoas usufruam da música, da arte que lhes oferecemos. Logo, som ambiente não é a nossa praia. As pessoas, claro, não sabem desses detalhes. O tal "faz um sonzinho aí" mexe um bocado com nosso ego. E mais: temos que dizer que não haverá "sonzinho". Daí somos grossos e metidos. Falei apenas a verdade: "nós não fazemos sonzinho".

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

LA BOHÈME

La Bohème, de Giacomo Puccini, é uma das minhas óperas favoritas. A primeira que ouvi. Meu pai me deu uma gravação (acima) que, mais tarde, vim a saber que é maravilhosa. Conheço bem a ópera, várias de suas gravações e vídeos, mas tive uma experiência muito bonita. Cantei La Bohème em forma de concerto. A música de Puccini é repleta de melodias, frases de beleza inigualável, texto pra lá de romantico. Estávamos, os cantores, no meio da orquestra, mais precisamente entre o maestro e as primeiras estantes das cordas. Desde os primeiros ensaios com a orquestra tive a impressão de pertencer, literalmente, à música. Uma sensação forte de ser, talvez, uma cor daquele quadro tão lindo e extenso. Acho que ali entendi que ser solista é apenas dar uma contribuição para algo muito maior; é colocar alguns tijolos numa construção.