Abstrato
Há 11 anos
"A ARTE EXISTE PORQUE A VIDA, POR SI SÓ, NÃO BASTA" Ferreira Gullar
Tenho lido A Grande Feira com grande interesse. Luciano Trigo descreve com muita propriedade os porões do mercado da arte. Ele cita, por exemplo, o "artista" Damien Hirst que colocou num aquário um tubarão mergulhado em formol. Essa "obra de arte" foi vendida por milhões de dólares e, não muito tempo depois, o peixinho precisou ser substituído por estar se decompondo. Outra passagem bem curiosa de Hirst eu trancrevo: "Sobre as telas que assina, Hirst já declarou que são pintadas por assistentes: 'Não estou a fim de me preocupar com isso. A pessoa que melhor tem pintado pra mim é a Rachel. Ela é brilhante. O melhor quadro meu que você pode ter é um quadro pintado pela Rachel.'" (pág.89). Que vergonha! Talvez o fato mais curioso seja o de que um diálogo aberto sobre esse assunto não aconteça no Brasil. Parece um tabu. Não se fala. Cala-se a respeito. Me pergunto: e o artista de verdade? aquele cara que vaza pelo seu trabalho, que não consegue ser se não for pela pintura, pela música...? Onde é que estamos? "é arte aquilo que o artista diz que é... é artista aquele que o sistema aponta como artista." (pág.89).
Estivemos ontem no Teatro Alfa assistindo ao espetáculo musical O REI E EU. A história é muito conhecida, agradável e politicamente correta. A música é boa. A orquestra muito correta, apesar do achatamento causado pela amplificação. Os cantores... Foi exatamente isso que mais me encantou. Havia ali uma verdadeira "arca de Noé" em se tratando de técnicas diversas. Cantores sem qualquer impostação, cantores com formação lírica e, ainda, cantores Belting, que é a técnica utilizada em musicais. Ambas conviveram muitíssimo bem. Claro que se distinguia perfeitamente cada uma delas, fato que apenas somou. Dos protagonistas posso dizer que encantaram. Tuca Andrada, o Rei, Claudia Netto, Anna e Luciana Bueno, Lady Thiang, estiveram muito bem. Falo particularmente da minha querida amiga Luciana Bueno (fotos), uma das grandes cantoras líricas desse país. Luciana é uma artista generosa. Não se poupa em nada, nunca. Está ali inteira, corpo e alma. Voz linda, marcante, personagem consistente e carismática. Foi uma bela noite!
No jornal O Estado de São Paulo de 27 de fevereiro de 2009, Nelson Motta escreveu um belo artigo intitulado “O fim da música”. Em poucas linhas ele diz que a música, mesmo antes do advento da internet, se esgotou. Diz que no exato minuto em que escrevo, milhares de músicas estão sendo jogadas na internet, criadas por qualquer pessoa, músico ou não; diz também que apenas uma pequeníssima porcentagem pode ser chamada de música. Fala dos grandes momentos musicais, especificamente dos vocais, óperas, musicais, a boa mpb... Quanto ao funck, diz que nada pode ser inventado de menos musical, pois este já não tem mais melodia e nem harmonia.
Difícil não concordar. Eu apenas chamaria a atenção para o momento particular em que vivemos, em que nossa cultura se vai como grãos de areia aparados por uma mão aberta. A música tornou-se, com o passar dos anos, produção. É preciso produzir música. É preciso produzir música que o povo goste. Falando especificamente do povo brasileiro, é preciso compor músicas que nosso povo ignorante goste; que faça com que nosso povo ignorante se divirta e se divirta sem pensar. A “música” tem que entrar e pronto.
Pelo que entendo, arte e diversão não são sinônimos. Arte sempre foi o retrato da civilização, da cultura, do pensamento. Seria bobo pensar em Bach, Mozart, Beethoven? Creio que não. Como também não é bobo pensar em Jobim. Esses mestres pensaram a música como a construção de um universo em si; colocaram ali sua visão particular de mundo, do mundo que os cercava. Por que razão continuam atuais? Por que, apesar da distância que nos separa, a música dos grandes compositores do barroco, do classicismo, do romantismo e de tantos outros “ismos”, ainda nos toca?
Tive a oportunidade de ver alguns estudos com pacientes de vários tipos e níveis de patologias, mostrando o quanto a boa música os auxilia nos tratamentos de suas doenças. Li que este tipo de música ajuda os pacientes a ordenarem melhor seus pensamentos, a construirem uma real possibilidade de cura. Obviamente não estou dizendo que música é capaz de curar, por exemplo, o Alzheimer, mas há melhora inquestionável em tais quadros.
O excesso de “produtos”, os novos “artistas” fabricados instantaneamente pela mídia, e seu conteúdo pobre e podre deveria nos fazer pensar por que não existe mais, ou melhor, por que a escassa música de qualidade não chega até nós. Por que nos tornamos reféns de “tapinhas” de amor que não doem? Onde estão os Artistas? Se eles existem, por que não lhes é dado espaço? Por que artista hoje em dia tem que ter peitos, bunda, ser sarado, ter nome de frutas... ser BBB?
Se estamos aprisionados por tudo isso, alguma coisa fizemos. Atrevo-me a dizer que paramos de pensar. Isso na música e, creio, em todas as artes. Poderíamos ser melhores, não!
Ressonância é uma palavra que tem feito parte dos meus dias. No canto lírico, espaço das metáforas e fantasias, é usada para designar o melhor lugar da voz, onde a voz é em sua plenitude. A voz, esse ser estranho que nos habita, se utiliza de todo o corpo para ressoar. É isso o que buscamos: nossas caixas de som, onde a voz é naturalmente amplificada. Tenho aprendido que as cores também têm ressonância; são como que acordes musicais que encontram seu espaço e podem conviver em plena harmonia e expansão. Ah, essa pintura é de Samson Flexor!
La Bohème, de Giacomo Puccini, é uma das minhas óperas favoritas. A primeira que ouvi. Meu pai me deu uma gravação (acima) que, mais tarde, vim a saber que é maravilhosa. Conheço bem a ópera, várias de suas gravações e vídeos, mas tive uma experiência muito bonita. Cantei La Bohème em forma de concerto. A música de Puccini é repleta de melodias, frases de beleza inigualável, texto pra lá de romantico. Estávamos, os cantores, no meio da orquestra, mais precisamente entre o maestro e as primeiras estantes das cordas. Desde os primeiros ensaios com a orquestra tive a impressão de pertencer, literalmente, à música. Uma sensação forte de ser, talvez, uma cor daquele quadro tão lindo e extenso. Acho que ali entendi que ser solista é apenas dar uma contribuição para algo muito maior; é colocar alguns tijolos numa construção.