Abstrato
Há 12 anos
"A ARTE EXISTE PORQUE A VIDA, POR SI SÓ, NÃO BASTA" Ferreira Gullar
Saindo desse triângulo Carreras Domingo Pavarotti, gostaria de apresentar outros cantores por quem tenho grande apreço. Vou fazer isso em doses e sem ser em sequência. Hoje apresento o tenor italiano PIER-MIRANDA FERRARO. Nascido em 1924, Ferraro teve seu apogeo nos anos 1960/70. Atuou várias e várias vezes no La Scala e em outros importantes teatros europeus. Aqui no Brasil podemos encontrar facilmente uma de suas gravações: La Gioconda, com Maria Callas. Importante frisar que em 60/70 estavam em atividade outros dois monstros sagrados: Del Monaco e Franco Corelli. Ferraro ficou, assim, um pouco escondido pelo brilho dos colegas, mas não fica a dever nada a eles. Conheci Ferraro pessoalmente. Aliás, tive o privilégio e a honra de ser seu aluno. Ganhei a Bolsa Virtuose do Ministério da Cultura e fui aceito pelo maestro Ferraro. Nossos encontros se davam em seu estúdio na cidade de Milão. Aos poucos fui conhecendo aquele artista que optava sempre pelo modo mais limpo de interpretar e pela não complicação de algo tão abstrato como a voz. Afetuoso e generoso, Pier-Miranda sorria com os olhos de uma criança, um sorriso puro e limpo pra um homem que, naquela época, 2001, contava com seus 77 anos. Meus momentos favoritos eram aqueles em que ele demonstrava como eu deveria fazer determinada frase. Sua voz estava lá, impressionantemente intacta, potente, uma faca, como dizemos. No dia 18 de janeiro de 2008, após o almoço em família, Pier-Miranda foi fazer a sesta. Morreu dormindo. Deixa para mim e para tantos outros, a lembrança do homem/cantor que foi.
Pavarotti, Domingo, Carreras... As pessoas sempre me perguntam quem é o melhor dos três. Questão de gosto. Cada um teve seu período glorioso. Placido Domingo teve, e ainda tem, uma carreira longeva; Pavarotti com aquela voz divina; o Carreras antes da leucemia era, provavelmente, não só a mais bela voz como também um grande músico. Pavarotti e Carreras faziam parte de um time de cantores mais preocupados com suas performances vocais mas, me pergunto, com aquelas vozes, pra quê se preocupar com outra coisa? Domingo, no decorrer dos anos, mostrou que tem uma técnica sólida, musicalidade excepcional e uma desenvoltura cênica invejáveis. Por essas razões, Placido se tornou não só o grande tenor que é, como também, o homem mais poderoso da ópera mundial.